15.07.2010
"Do Norte a ver passar os Aviões" (Crónica Rádio Fundação)

Na semana que passou ficámos a saber que a prova do “Red Bull Air Race” a ter lugar no próximo mês de Setembro nas margens do rio Douro foi cancelada. Depois de, nos últimos anos, se ter afirmado com enorme sucesso no Porto e em Vila Nova de Gaia, depois de Lisboa ter reclamado para si o sucesso do Norte, eis que chega o derradeiro anúncio. A Prova já não vai acontecer.

Dir-se-á, porventura, que o episódio “Red Bull Air Race” não é propriamente uma das matérias que – no actual cenário – preocupa ou sequer inquieta os portugueses. Mas, se encarado como o paradigma do modelo de desenvolvimento em que, enquanto país, teimamos insistir, então, talvez já nos sobejem motivos de preocupação.

Enquanto país, insistimos sempre no mesmo modelo de desenvolvimento que é, justamente, não termos modelo nenhum. Lisboa é, desde há vários anos, uma espécie de íman que teimosamente atrai tudo (ou quase tudo) quanto tem e gera valor em Portugal. E o resto do país – em especial o Norte e o Interior – são deixados à míngua de tudo quanto precisam para se afirmarem como regiões pujantes e dinâmicas. O resultado está à vista. Não se vive bem em Lisboa, nem se vive bem no resto do país. Em suma: não se vive bem em lado nenhum.

A capital sofre dos problemas crónicos do sobrepovoamento e o resto do país sofre as pesadas consequências da desmedida atractividade da capital. Não estamos - manifestamente não estamos - a caminhar para um modelo de desenvolvimento sustentado assente numa rede de cidades de média dimensão, economicamente pujantes, culturalmente atractivas e internacionalmente reconhecidas. Não é certamente por acaso que quando perguntamos a um estrangeiro que cidades portuguesas conhece somos, invariavelmente, confrontados com Lisboa, com o Porto e, porventura, com os nomes de algumas praias do Algarve. E, por contraponto, quando, por exemplo, perguntamos por cidades espanholas eis que, apressadamente, nos indicam várias paragens de “nuestros hermanos”, de Barcelona e Bilbao, de Sevilha a Saragoça, passando, já agora, por Madrid.

Mas, de volta a Portugal, os números são o que são:

No Norte, o PIB per capitaé o mais baixo do país.

No Norte, a taxa de desemprego ascende a 12,5%, mais 2% que na região de Lisboa.

O Norte foi – segundo noticiado há algum tempo pelo JN – a única região do país a atrasar-se na Europa. Foi a única que, numa década, perdeu terreno face à média comunitária e ficou mais pobre.

De resto, nem precisaríamos da crueza dos números para apreendermos a realidade de um Portugal desequilibrado. Basta olhar em volta e descobri-lo no dia-a-dia de cada um de nós.

Da minha parte, e desde que estou em Lisboa, já vi juntarem-se a mim – estritamente por motivos profissionais – mais de uma dezena de amigos… até ao momento nenhum voltou, nem nenhum sabe se algum dia voltará.

Se em Lisboa falo da CEC 2012 poucos ou nenhuns sabem que será em Guimarães e uma boa parte nunca esteve sequer na nossa primeira cidade. Quando me reconhecem a pronúncia, invariavelmente deixam escapar um “logo vi que é do Porto”, e quando digo que não – que sou de Guimarães – alguns ainda ousam ripostar com um “é a mesma coisa, fica lá no Norte”. Há mesmo quem, sabendo que sou de Guimarães, procure um laivo de afinidade dizendo qualquer coisa como “é de Guimarães?! Os meus avos vivem lá perto em Viana do Castelo”. Normalmente respondo dizendo que também tenho uns amigos bem perto de Lisboa – em Santarém, ou algo assim do género.

Entristece-me, todavia, pensar que para quem nasceu, vive e sempre viveu na capital, o Norte seja uma espécie de massa amorfa, sem identidade ou identidades. Nada mais longe da verdade.

 Mas de que vale apontar o dedo a todos quantos nos confrontam e afrontam com esta visão tão distorcida das coisas se o actual e os anteriores Governos pouco ou nada fizeram – pelo contrário – no sentido de que expressões como “coesão territorial”, “redução das assimetrias regionais” ou mesmo “desenvolvimento equilibrado” saíssem do papel?!

Por isso, a indignação com a novela “Red Bull Air Race” pouco ou nada tem a ver com a tristeza por ver partir rumo ao sul uns avioezinhos irrequietos e acrobatas. É que ela é muito mais do que a história de uma corrida/evento bem sucedido, ela protagoniza, verdadeiramente, a história dos nossos filhos, dos nossos netos, do investimento público, das mega infra-estruturas, das grandes empresas que nascem no Norte e, de uma forma ou de outra, vão acabar em Lisboa.

Mas os governantes, habituados à natureza amigável das gentes do Norte, esquecem que, qualquer dia, o Norte vai fartar-se de ver passar os aviões.



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